A Arca de Noé e a formação de Durupınar
Por Flávio Gilberti · 27 de setembro de 2026 · 12 min de leitura

A hipótese de que a Arca de Noé esteja preservada nas montanhas do leste da Turquia voltou a ganhar destaque com os levantamentos geofísicos e as sondagens realizados em Durupınar. O contorno alongado da formação, semelhante ao de uma embarcação, e as alegações de estruturas subterrâneas despertam uma pergunta legítima: até que ponto os resultados atuais correspondem às descrições transmitidas pela Antiguidade? A comparação revela uma tradição histórica e literária muito antiga sobre um dilúvio e uma embarcação salvadora. Contudo, os dados disponíveis até 27 de setembro de 2026 ainda não permitem identificar Durupınar como os restos dessa embarcação.
A investigação começa muito antes das expedições modernas. Um relato sumério preservado em tabuinha do segundo milénio antes de Cristo apresenta Ziusudra como sobrevivente de uma grande inundação. Avisado de uma decisão divina, ele atravessa a catástrofe numa grande embarcação e oferece sacrifícios após a tempestade. O texto é fragmentário, mas conserva elementos que também aparecem em Génesis: o aviso, a preservação da vida e a ação de graças depois do desastre. Ao final, Ziusudra recebe morada em Dilmun. Esse destino posterior do sobrevivente não deve ser confundido com uma localização dos restos do barco.
Na tradição babilónica de Atrahasis, igualmente documentada no segundo milénio antes de Cristo, uma divindade adverte o protagonista e orienta a construção de uma embarcação. Uma versão estudada pelo assiriólogo Irving Finkel contém instruções para um enorme barco circular, construído com fibras e madeira e impermeabilizado com betume. A descoberta é relevante para a história da narrativa, mas introduz uma diferença concreta: esse formato não corresponde ao contorno alongado de Durupınar.
A tabuinha XI da Epopeia de Gilgamesh apresenta paralelos ainda mais detalhados. Utnapishtim embarca familiares, animais e artesãos, sobrevive à inundação e solta aves para verificar se as águas recuaram. O barco repousa no monte Nimush, nome também conhecido pela leitura tradicional Nisir. Entretanto, a descrição determina que comprimento e largura sejam iguais, ao contrário das proporções de Génesis. Esses textos mostram a circulação de uma narrativa partilhada, acompanhada de diferenças na construção literária, na teologia e nos pormenores da embarcação.
Há também referências antigas a supostos restos materiais. Em Antiguidades Judaicas, escritas no século I depois de Cristo, Flávio Josefo cita Beroso, sacerdote babilónico do século III antes de Cristo, segundo o qual partes de uma embarcação permaneceriam nas montanhas dos Corduênios, na Arménia. Habitantes retirariam betume para utilizá-lo como amuleto. Josefo cita ainda Nicolau de Damasco, que menciona o monte Baris e a preservação de madeira de uma embarcação associada ao dilúvio. Essas passagens são historicamente relevantes porque documentam a crença antiga na sobrevivência de vestígios. Todavia, chegam-nos por transmissão literária, sem elementos que permitam vincular os materiais descritos às amostras hoje recolhidas em Durupınar.
Outras tradições acrescentam nomes à geografia da arca. O Livro dos Jubileus indica Lubar, um dos montes de Ararat; o Alcorão menciona Al-Judi. Essa diversidade exige cuidado ao relacionar os textos com um sítio moderno. Além disso, Ararat corresponde historicamente a Urartu, nome de um reino e de uma região. A expressão bíblica “montes de Ararat” não identifica, por si só, o cume atualmente chamado monte Ararat nem uma formação específica das suas proximidades.
O conjunto dessas fontes oferece evidência consistente da antiguidade e da difusão da tradição do dilúvio. O seu valor, porém, depende de reconhecer as relações entre os relatos. Textos de culturas diferentes podem conservar uma memória comum, reelaborar narrativas anteriores ou combinar experiências e tradições. Não constituem necessariamente testemunhos independentes de um mesmo acontecimento. A sua concordância em determinados temas deve ser examinada juntamente com as divergências de localização, formato e dimensões.
A arqueologia mesopotâmica acrescenta um dado material a essa discussão. As escavações de Fara, identificada com a antiga Shuruppak, encontraram depósitos de inundação sobre níveis de ocupação humana. Shuruppak aparece associada ao herói do dilúvio nas tradições mesopotâmicas. Essa relação torna plausível que grandes cheias tenham contribuído para a formação e a transmissão das narrativas. Não demonstra, entretanto, que todas as tradições descrevam uma única catástrofe, nem estabelece uma ligação física entre esses depósitos e Durupınar.
Na formação turca, um dos argumentos mais divulgados é a proximidade entre o comprimento de aproximadamente 157 metros e os 300 côvados atribuídos à arca em Génesis. Essa conversão pressupõe um côvado próximo de 52,36 centímetros. A comparação completa precisa considerar também a largura e a altura: pelo mesmo cálculo, a embarcação bíblica teria cerca de 26 metros de largura e 16 de altura. A proporção entre comprimento e largura seria de seis para um, qualquer que fosse o valor adotado para o côvado. O estudo geológico de Murat Avcı, por sua vez, descreve a formação superficial com aproximadamente 150 metros de comprimento e 50 de largura, uma relação próxima de três para um.
Os defensores da identificação sugerem que um colapso poderia ter alargado a estrutura. É uma hipótese investigável, mas depende de evidências de deformação e de uma reconstrução documentada da forma original. A correspondência parcial do comprimento, isoladamente, oferece um argumento limitado. O rigor exige que os critérios usados para reconhecer semelhanças também sejam aplicados às diferenças.
Os levantamentos com radar constituem outra linha de investigação. O relatório disponibilizado pelo projeto, que compara dados de 1987 e 2019, descreve reflexões lineares e angulares em diferentes profundidades. O próprio documento reconhece dúvidas sobre a relação entre essas feições e sobre a possibilidade de camadas de solo produzirem alguns dos sinais. Identificar uma reflexão geofísica é diferente de demonstrar uma parede, um pavimento ou uma peça de madeira. O significado arqueológico dos padrões depende da correspondência entre os sinais e materiais examinados diretamente.
Em agosto de 2026, a Universidade Sivas Cumhuriyet anunciou novas anomalias subterrâneas e um teor de carbono aproximadamente 40% superior no interior da formação em comparação com o exterior. O resultado pode orientar a recolha de amostras, mas o aumento de carbono não identifica a sua origem nem a idade do material. Para relacioná-lo com uma embarcação, seria necessário caracterizar as substâncias presentes e demonstrar a sua associação com elementos construtivos, controlando explicações relacionadas com o solo e a história do depósito.
As sondagens anunciadas em setembro representam, por isso, um avanço metodológico relevante. Segundo o comunicado da expedição, foram encontradas camadas ricas em matéria orgânica, cavidades e uma camada resistente que provocou a quebra de uma broca. A hipótese de madeira petrificada foi apresentada pelos investigadores como possibilidade a examinar em laboratório. A resistência à perfuração, por si só, não permite identificar madeira nem distinguir uma construção antiga de um material geológico.
A equipa também informou não ter encontrado rocha contínua ou calcário maciço nos furos realizados dentro da formação. Essa observação merece ser confrontada com os modelos anteriores. Em 1996, Lorence Collins e David Fasold identificaram minerais e rochas em amostras apresentadas como possíveis componentes da arca. Em 2007, Avcı propôs que a formação correspondesse a um bloco de calcário deslocado e modificado por processos de encosta. Se as novas sondagens contradisserem esse modelo, ele deverá ser revisto. A eventual insuficiência de uma explicação geológica específica, contudo, não comprova automaticamente a existência de um casco.
Essa distinção é decisiva para avaliar as manchetes. Demonstrar uma estrutura construída pelo homem, demonstrar uma embarcação antiga e identificá-la como a Arca de Noé são conclusões diferentes, que exigem evidências progressivamente mais específicas. Da mesma forma, uma datação de matéria orgânica estabeleceria a idade da amostra analisada; a sua associação com uma embarcação dependeria do contexto arqueológico. Nos documentos consultados, não foi apresentada uma identificação laboratorial independente de madeira estrutural no seu contexto original, acompanhada de datação e demonstração de um padrão construtivo.
À luz desse conjunto, a origem natural de Durupınar permanece a hipótese mais bem sustentada pelos estudos publicados aqui examinados. Essa avaliação é provisória e deve responder a novos dados verificáveis. A tradição extrabíblica justifica o interesse histórico pela busca, mas ainda oferece pouca capacidade de identificar aquela formação entre os vários lugares associados à arca.
Uma mudança substancial nessa avaliação dependeria de materiais inequivocamente trabalhados, conexões entre peças, organização construtiva, eventual impermeabilização e datações coerentes, com documentação de campo e confirmação independente. As fontes antigas ajudam a formular perguntas sobre esses vestígios; a resposta depende do que for efetivamente encontrado, analisado e demonstrado.
Referências
- BÍBLIA. Génesis, capítulos 6–9, especialmente 6,14–16 e 8,4. Texto e notas da United States Conference of Catholic Bishops. Génesis 6 (https://bible.usccb.org/bible/genesis/6) e Génesis 8 (https://bible.usccb.org/bible/genesis/8).
- UNIVERSITY OF OXFORD. The Flood Story, composição 1.7.4. Electronic Text Corpus of Sumerian Literature. Tradução do relato de Ziusudra (https://etcsl.orinst.ox.ac.uk/section1/tr174.htm).
- FINKEL, Irving. The Ark Before Noah: Decoding the Story of the Flood. Londres: Hodder & Stoughton, 2014. Ver também a exposição do próprio autor: “The Big Flood on the Big Screen” (https://time.com/35532/the-big-flood-on-the-big-screen/), TIME, 2014.
- GEORGE, Andrew R. The Babylonian Gilgamesh Epic: Introduction, Critical Edition and Cuneiform Texts. Oxford: Oxford University Press, 2003. Tabuinha XI. Tradução e transcrição disponibilizadas pela SOAS (https://www.soas.ac.uk/baplar/recordings/epic-gilgames-standard-version-tablet-xi-lines-1-163-read-karl-hecker).
- JOSEFO, Flávio. Antiguidades Judaicas, livro I, capítulo 3, secções 5–6, incluindo os testemunhos atribuídos a Beroso e Nicolau de Damasco. Tradução de William Whiston. Texto disponibilizado pela Universidade de Chicago (https://penelope.uchicago.edu/josephus/ant-1.html).
- Livro dos Jubileus, 5,28 e 7,1. Texto em tradução inglesa (https://scrollmapper.github.io/scrolls/extrabiblical/jubilees/) e capítulo VII em tradução italiana (https://www.intratext.com/IXT/ITA0410/_P7.HTM).
- ALCORÃO. Sura Hud, 11,44. Traduções paralelas no Quranic Arabic Corpus (https://corpus.quran.com/translation.jsp?chapter=11&verse=44).
- SALVINI, Mirjo. “The Spread of the Cuneiform Culture to the Urartian North (IX–VII Century BCE)”. In: Melammu: The Ancient World in an Age of Globalization. Berlim: Max-Planck-Gesellschaft, 2014. Texto integral (https://www.mprl-series.mpg.de/proceedings/7/16/index.html).
- SCHMIDT, Erich. “Excavations at Fara, 1931”. The Museum Journal, XXII, n.os 3–4, 1931, pp. 192–246. Relatório original de escavação (https://www.penn.museum/sites/journal/9356/). Utilizado como documentação dos depósitos observados, sem adotar automaticamente a cronologia e as interpretações históricas da época.
- COLLINS, Lorence G.; FASOLD, David F. “Bogus ‘Noah’s Ark’ from Turkey Exposed as a Common Geologic Structure”. 1996. Texto disponibilizado pela California State University, Northridge (https://www.csun.edu/~vcgeo005/bogus.html).
- AVCI, Murat. “‘Noah’s Ark’: Its Relationship to the Telçeker Earthflow, Mount Ararat, Eastern Turkey”. Bulletin of Engineering Geology and the Environment, 66, 2007, pp. 377–380. DOI: 10.1007/s10064-007-0084-3 (https://doi.org/10.1007/s10064-007-0084-3).
- Integration of Ground-Penetrating Radar, LiDAR, and Empirical Field Studies: A Multifaceted Analysis Comparing 1987 and 2019 Field Studies of the Durupinar Boat Formation Known as “Noah’s Ark”. Relatório disponibilizado no repositório do projeto Noah’s Ark Scans (https://www.noahsarkscans.com/research).
- SIVAS CUMHURIYET UNIVERSITY. Comunicado sobre os primeiros resultados da investigação de Durupınar, 28 de agosto de 2026. Publicação institucional (https://test2.cumhuriyet.edu.tr/duyurular-ve-haberler.php?id=18597&tur=haber).
- NOAH’S ARK SCANS. “Core Drilling Begins at Durupinar Noah’s Ark Site, Drill Bit Shatters on Possible Layer of Petrified Wood”. 23 de setembro de 2026. Comunicado da expedição distribuído pela GlobeNewswire (https://www.globenewswire.com/news-release/2026/09/23/3367545/0/en/core-drilling-begins-at-durupinar-noah-s-ark-site-drill-bit-shatters-on-possible-layer-of-petrified-wood.html).
- PATTERNS OF EVIDENCE. “The Hunt for Noah’s Ark: Durupinar — Part 1”. 10 de abril de 2026. Entrevista com Andrew Jones (https://www.patternsofevidence.com/2026/04/10/the-hunt-for-noahs-ark-durupinar-part-1/), utilizada para documentar a explicação dos proponentes sobre o alargamento da formação.
- Referências eletrónicas consultadas em 27 de setembro de 2026. Os comunicados da universidade e da expedição documentam resultados preliminares e declarações dos responsáveis; não equivalem à validação independente da identificação arqueológica.
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